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segunda-feira, 8 de março de 2010


Jornal Gazeta da Lapa, Ed. 065. out / 09. mat. / entrevista / pe.Zezinho/ jornalista / Ispedito Nunes.

ENTREVISTA COM O PADRE ZEZINHO

ENTREVISTA:

Gazeta da Lapa – Onde e como o senhor viveu a sua infância?
Padre Zezinho – Vivi minha infância em minha cidade natal, Conceição do Coité, que fica a 210 Km da capital Salvador. Procurei, mesmo sem ter noção na época, viver minha infância de maneira sadia, como qualquer garoto de uma cidade do interior. Brinquei muito, fui criança, aproveitei o tempo. A coisa que eu levava mais a sério era a brincadeira. Por isso, vejo, hoje, com saudades minha infância. Fui o que tinha que ser.

Gazeta da Lapa – Houve alguma forma de reprovação ou resistência quanto à sua vocação religiosa quando aconteceu a descoberta?
Padre Zezinho – Rejeição quanto a minha vocação não, houve sim, comentários, os quais as vezes sem fundamentos. Mas não dei ouvidos.

Gazeta da Lapa – Quais foram os caminhos percorridos pelo padre Zezinho até chegar em Bom Jesus da Lapa?
Padre Zezinho – A minha caminhada vocacional ao sacerdócio começou a partir do momento em que escrevi para o secretariado vocacional redentorista. Isso em 1998. 2000, entrei no seminário aqui na cidade de Bom Jesus da Lapa, no ano seguinte, transferir-me para Salvador para estudar Filosofia, onde fiquei até 2002. 2003, passados dois anos fui morar em Goiânia. Passei um ano e voltei a Salvador para cursar a Teologia. Em 2007, 28 de outubro, em Salvador, recebi a ordenação diaconal. No dia 26 de abril de 2008, na minha cidade natal, Conceição do Coité, fui ordenado sacerdote pelas orações e imposição das mãos de Dom Gregório Paixão, bispo auxiliar de Salvador. Em setembro de 2008, transferiram-me da cidade de Senhor do Bonfim para Bom Jesus da Lapa.

Gazeta da Lapa – O senhor é do tipo que lê muito, pesquisa e se atualiza pra contextualizar a evangelização. O que te levou a tomar essa linha de pregação?
Padre Zezinho – Cristo viveu uma época de muita marginalização, de uma exclusão cruel. Ele compreendeu e leu o seu tempo. Falou de Deus encarnado na história. A linha de pregação que tomei, é baseado em Cristo. Lendo os evangelhos, faço-me uma pergunta antes de cada missa, o que o evangelho lido tem a ver com o dia-a-dia meu e das pessoas que me ouvirão. Daí, tiro as implicações para o hodierno. O que Cristo falaria neste contexto. Sabemos, pois, que aconteceram mudanças radicais, com a técnica, a cibernética, a sociedade tomou outros rumos. Como falar de Deus em meio a tudo isso. Contar as histórias do passado, falar de um Deus que não interpela com o ser humano não é minha linha de pensamento. Por isso, falo das coisas rotineiras, da realidade de cada um. Com isso, sei que corro o risco de algumas pessoas se espantarem por não terem costume de ouvir o que falo, mas tudo tem seu preço, foi para isso que fui formado, para dar o melhor de mim sem querer agradar gregos e troianos. É verdade, leio bastante para poder discernir melhor o caminho de Deus. Gosto de poesia, poema, sonetos, músicas. Acredito que os poetas lêem em uma linguagem simbólica nossa realidade. Vejo a Bíblia como um enorme livro de poemas e poesias de um Deus apaixonado pela sua criatura. Vejo Jesus como um grande poeta, leu, como ninguém, a “alma humana” e revelou-nos um Deus humano cheio de afeto e de ternura.

Gazeta da Lapa – Suas homilias são sempre recheadas de citações clássicas de autores celebres, literatos, filósofos, compositores, psicólogos, etc. Essa é uma nova tendência da Igreja Católica, ou apenas a sua capacidade de mudar segundo as necessidades da sua Paróquia?.
Padre Zezinho – Não diria que seja uma tendência da Igreja, mas uma coisa pessoal. Como falei acima, nas belas canções, encontro composições que resumem meu pensamento. Por exemplo, a máxima que quero viver encontrei numa composição de Victor Garcia, cantada por Mercedes Sosa, intitulada Sólo Le pido a Dios (Eu só peço a Deus), diz um trecho da música: Sólo le pido a Dios que el dolor no me sea indiferente, que la reseca muerte no me encuentre vacío y solo sin haber hecho lo suficiente. (Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria). Isso é o que procuro viver todos os dias. Na letra da música, encontrei o que pensava de forma profunda e sintética. Que capacidade tem os poetas! Na Filosofia, encontro os meios pelos quais o meu raciocínio é levado a perceber a diferença entre o essencial e o secundário. É um estado de espírito. Na psicologia, não que ela detenha o todo, encontro caminhos para me ajudar a compreender melhor minhas manifestações e as de outrem. Repito, ela não é máxima da leitura do ser humano. O humano é maior do que todas as ciências, as tecnologias, como me falou meu amado amigo.

Gazeta da Lapa – O seu tipo de pregação esta sendo considerado em sua Paróquia, como inovador na Igreja Católica. O senhor acha que os fiéis contemporâneos dormem nas homilias com base exclusivas nas três leituras da missa
Padre Zezinho – Não nego que já ouvi comentários sobre minhas homilias, algumas favoráveis outras não, mas não me cai nenhum cabelo por causa disso. As pessoas, uma boa parte, não percebem que mesclo todas as leituras numa linguagem contextualizada. Não fico repetindo as palavras das leituras, isso ouviram durante a proclamação da Palavra. A homilia, vejo, é para elucidar o que foi dito, é para transpor o que aconteceu para a atualidade. Procuro, nas homilias, chamar a atenção de todos sobre uma única coisa adormecida em nós, o amor. As pessoas vivem a superficialidade das relações e pensam que amam. Esvaziam a palavra amor. Faço minha as palavras de Luís de Camões: “Amor é um fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”. Amar é amar. Não tem razões e não tem porquês, como diria Carlos Drummond de Andrade. Tento demonstrar que Deus é amor, tento dizer para as pessoas que sintam isso, que não fiquem só na palavra, mas que transcendam. Quanto ao dormir durante as homilias, sem querer ter falsa modéstia, até hoje durante as missas que presido não percebi isso ainda. Pelo contrário, vejo os fiéis atentos e de olhos arregalados, talvez pela forma como celebro.

Gazeta da Lapa – Qual a sua opinião sobre o Santuário de Bom Jesus da Lapa?
Padre Zezinho – Sem sombra de dúvida é uma obra magna da natureza. Percebo que o lapense não dá o devido valor a esta obra graciosa que é o Santuário. Mas, vou e volto, geralmente, nós quando temos algo não sabemos dar valor. No que diz respeito à romaria, vejo-a como manifestação de uma fé simples, mas enriquecida de sentimentos verdadeiros. O romeiro do Bom Jesus tem grandes diferenças dos romeiros de outros lugares sagrados. É um romeiro muito espontâneo, simples. Um romeiro que dialoga com o Bom Jesus. O que o faz diferente, impar.

Gazeta da Lapa – E sobre esta cidade?
Padre Zezinho – A cidade de Bom Jesus da Lapa por ser uma cidade turística, deveria ter melhores acessos, melhor infra-estrutura, melhor planejamento. Uma outra coisa, é que percebo o descaso do poder público, seja ela municipal, estadual e pior federal. Por exemplo, a saúde, qualquer exame simples, que não seja o laboratorial, aqui não se faz. Qualquer pessoa que tenha um caso mais grave de saúde, nem tão grave assim, é levada para as cidades da região. A cidade da Lapa, por ser longe de grandes cidades, deveria ter uma melhor assistência médica. Em síntese, basta olharmos o caos em que se encontram as nossas rodovias.

Gazeta da Lapa – Dentre os seus paroquianos ou até mesmo algum confrade já lhe interpelaram quanto a sua forma de celebrar?
Padre Zezinho – Já, tanto entre os paroquianos quanto aos confrades. Mas faz parte, nada que me tire o sono. Vejo como algo positivo, pois é bom ser diferente, isso me deixa em êxtase, sou diferente.

Gazeta da Lapa – O que o senhor acrescentaria a esta entrevista, que não lhe foi questionado?
Padre Zezinho – Acrescentaria que vou continuar com a forma de evangelizar que venho tendo, mesmo que algumas pessoas não compreendam. Que prefiram estar pelas “bordas” do que ir ao centro. Devo dar o melhor de mim, não agir na lei do menor esforço. Por fim, agradeço ao jornal Gazeta da Lapa, na pessoa de Ispedito Nunes, pela entrevista e dedico esta entrevista, como tudo em minha vida, ao meu amado amigo. Ponho-me a disposição da comunidade lapense e aberto, inclusive, a comentários.

Amizade, casamento de almas!


Encontro-me sozinho com os meus pensamentos, os quais são como flashes, relâmpagos. Agem numa velocidade incrível. Assim são os pensamentos. Dentre muitos, há os que me assolam no momento. Meu Deus! Tem um que está fazendo cócegas em minhas ideias, a amizade. Já escrevi algo sobre a amizade num outro momento. Mas como ela sempre volta aos meus pensamentos, resolvi escrever sobre ela novamente. Volto a repetir, não tenho receitas prontas acerca do que seja esta nobre realidade do humano.
Lendo Rubem Alves, “E aí? Cartas aos adolescentes e a seus pais”, uma frase me chamou a atenção. Na verdade ele, Rubem, cita uma letra da música de Roberto Carlos: “Eu quero ter um milhão de amigos”. Sempre fui da mesma opinião de Rubem, “a amizade requer tempo”. Concordo. É também minha opinião sobre a amizade. Como poderemos dar tempo a milhões de amigos. A amizade é algo seleta por ela mesma. Requer reciprocidade, casamento de almas, um ser um eu no tu, sem que ambas as partes percam suas individualidades. É mais do que um estar juntos, é um namoro entre duas almas que se deram, sem reservas, uma a outra. Não se trata de uma disfunção da sexualidade, como os hipócritas , diria Jesus, quer ver. É um prazer incomensurável, que não se restringe a corporeidade, mas sim a uma realidade ontológica, transcendente. Foge, escapa da reles razão. É uma realidade que só entende quem a vive. Camões percebeu e narrou em seu soneto: “Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade se tão contrário a si é o mesmo amor?”. Parece paradoxal, mas é tão profundo que as palavras, as mais belas possíveis, não conseguem dizer como é ou o que seja a amizade, parafraseando Luís de Camões, diria: “é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”.
A amizade é tão profunda que não conseguimos dizer, nem ensaiar, o que seja. Só vai compreender quem vivê-la, do contrário verá uma “frescura”, um “grude”. Lembro que é característica da amizade o desejo, insaciável, de está juntos, de compartilhar momentos, os mais “bobos”. Assim é a amizade. Muitos preferem ver a amizade como algo pegajoso, a estes cito-lhes o livro de primeiro Samuel, capítulo 18, versículo 1: “a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma”. É mais do que um simples encontro, é um, como já mencionei acima, casamento de almas, onde uma toca a outra sem usurpar. Que grandiosidade é a amizade. O que se ligou a Davi não foi puramente o racional de Jônatas, mas e, principalmente, o transcendente, a alma. O que havia de mais profundo em Jônatas, tanto assim que Davi vai dizer que “caíram os poderosos, no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi morto. Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres” (2Samuel 1,25-26). Que coragem de Davi assumir esta verdade: “Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres”. Hoje, na sociedade em que vivemos, assumir isso, poderia algum hipócrita - ‘Upokrith,j (ripokrités) – gritar que esteja acontecendo um declínio do machismo caduco. Mas quem é amigo pode, deve, ter consciência disso, que o amor do amigo é excepcional. Chamo-os de hipócritas, quem age assim, por está sendo simulado, falso. Uma vez que sabe que há este desejo, esta vontade de amar com a alma alguém, mas em nome da rudez não se permite. E, pior em nome do que os outros vão pensar. Dane-se aquilo que os outros vão pensar. No uso da liberdade, devemos agir com o coração, realizar o que sentimos.
Ponho-me a imaginar que amigo especial deve ter sido Jesus. Ele afirmou: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo 15,15). Meu Deus! Que amigo! Deu-se a conhecer totalmente. Percebemos isto na expressão, “porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”. A pequena partícula “tudo”, significa todo o Projeto de Deus. Não houve reservas de Jesus para com seus amigos. Falou-lhes às claras, falou-lhes do seu âmago. Assim são os amigos, revela-nos sua intimidade e conhece a nossa. Perante um amigo, ficamos despidos de qualquer entrave humano, ele nos conhece integral e totalmente. Para isso custa-nos, pois só agirá assim quem é realmente amigo.
O viver a amizade não é para todos. Exige uma investida de nossa parte. Isso não é fácil, é, sem sombra de dúvida, uma saída de nós mesmos para encontrar um tu e formamos um nós. É amar o outro do jeito que ele é, sem querer moldá-lo à nossa maneira. É custoso, mas prazeroso. Devemos ser mais amigos do que esperar amizade. Veio-me a oração atribuída a São Francisco de Assis quando diz: “Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado”. Podemos rezar assim: “ser mais amigo do que esperar amizade”. Realmente só um místico para interiorizar isso e rezar com a alma. Há uma canção, não conheço a autoria, que diz: “fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas”. Seja amigo, dê a amizade.
A você que tem um amigo, não tenha medo de dizer que o ama, que suas almas se encontraram e mais, casaram-se. Não tenha medo de assumir seu amor pelo amigo, lembre-se de Davi e Jônatas, “mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres”. Acrescento ainda com as palavras de Jesus. “E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer” (Lc 12,4). Não devemos ficar pensando naquilo que os outros poderão pensar de nós. Como disse Jesus, poderão até matar o corpo, mas nunca nos tirará o prazer da alma, a liberdade conquistada. Aristóteles em Ética a Nicômaco, diz que a amizade é mais fácil surgir entre os jovens do que nos mais velhos, pois quando chegar a velhice terá um amigo adquirido na juventude. Com esta idéia aristotélica, lembrei-me da carta de Epicuro a Meneceu quando diz: “porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito”. Para atingir o alto grau da amizade só com o passar dos anos. No início poderá surgir o desejo da amizade, o que faz parte de sua lógica, mas ela mesma, só surgirá com o passar do tempo. Quando for provada.
A amizade, por si só, faz sua seleção. Não haverá muitos amigos ao seu redor. “Sejam numerosas as tuas relações, mas os teus conselheiros, um entre mil” (Eclesiástico 6,6). Sabedoria do livro de Eclesiástico. Teremos muitas pessoas queridas de quem nós gostaremos e que gostarão de nós. Mas amigo, este será um em um milhão e olhe lá. É comum ouvirmos: “meu amigo de infância”. Será? Amizade nunca finda. Quando “ela” findar é porque nunca principiou. Houve o desejo, que é uma de suas etapas, mas não a amizade. Como diz o adágio popular: “entre a amizade pode haver mil vírgulas, mas nunca um ponto final”.
Anos idos, não me recordo quando, recebi um cartãozinho que dizia que “nem todo irmão é um amigo, mas todo amigo é sempre um bom irmão”, não é que isso está no livro dos Provérbios, capítulo 18, versículo 24. Está lá. “Há amigos que levam a ruína, e há amigos mais queridos do que irmão”. Por isso não se espante quando tiver um sentimento maior por um amigo do que por seu irmão. Amigo é amigo. A nossa tendência é nos sentirmos culpados por gostar mais de um amigo do que o irmão, pois dado que o irmão é sangue do meu sangue. A sensação de que pertencendo a consanguinidade deva gostar mais. O que não acontece quando encontramos um amigo. E isso as vezes pode deixar um desconforto interno. Quando sabemos, com a vida, o que é a amizade, isso não nos incomoda, pelo contrário ratifica.
Ambrósio vê a amizade como a realidade mais bela da terra. “A amizade deve ser constante, perseverante no afeto: não devemos como as crianças, mudar os amigos, seguindo a volubilidade dos sentimentos... Conservai, portanto, ó filhos, a amizade que haveis contraído com vossos irmãos, porque essa é a mais bela entre as realidades daqui debaixo”. As vezes, falta-nos palavras para expressar o que não é a amizade, por isso faz-se uso de alguns termos, como por exemplo, o que disse Ambrósio, “não devemos como as crianças, mudar os amigos”. Claro que, como falara anteriormente, uma vez amigo sempre amigo. Quando a amizade principia se torna eterna. Não há fim. Se findar é porque não principiou.
A amizade, coloca Carlo Rocchetta, “tem necessidade da ternura como dileção, refinada sensibilidade, disponibilidade para dar e receber afeto mútuo, ajuda recíproca”. Só aos sensíveis será dada a capacidade da percepção da intimidade do outro. A sensibilidade não diz respeito a gênero, se homem ou mulher, mas a todo ser humano. Pois a nossa cultura não admite ao homem ser sensível, pois isso vão dizer os sem estruturas psíquicas, “é coisa de mulher”. Pobre dos que pensam assim. Estaria negando sua humanidade. A sensibilidade é intrínseca a humanidade. Penso que só seremos divinos quando atingirmos o alto grau da humanidade. Aí você chama do que quiser: êxtase, transe, divinização. Só sei que é divinamente humano.
Por fim, a amizade é um adentrar no mais profundo do outro. É estar dentro do outro. Finalizo com as palavras de Khalil Gibran: “Se o amigo vos confia seu pensamento, não lhe escondais o vosso. Quando ele cala, vosso coração não cessa de ouvi-lo, porque na amizade cada pensamento, desejo ou esperança nasce em silêncio e se comporta com alegria”.
José Roberto Miranda Ramos
Zezinho

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

CF 2009


Campanha da Fraternidade 2009

Pe. José Roberto Miranda Ramos, CSsR

Zezinho

 

“O fruto da justiça será a paz. De fato, o trabalho da justiça resultará em tranqüilidade e segurança permanentes” (Is 32,17).

 

A

 paz é conseguida em qualquer nível cultural ou econômico e que a cultura é uma forte ferramenta para a conquista da paz e da justiça. Na parte mais ao fundo da imagem podemos perceber que há lixo jogado, representando uma vida bagunçada e sem sentido. Que é deixado para trás. O jovem da foto é um convite para que se crie condições para a promoção de uma cultura da paz fundamentada na justiça social e iluminada pelo Evangelho e pelos valores cristãos. A foto em preto e branco realça a característica da cena retratada, dando emoção ao momento captado e enfocando a seriedade, o que leva a reflexão sobre o conteúdo. O livro colorido é para destacar a leitura e a cultura como forma de combate à violência.

 

A CNBB tem como objetivo para esta campanha de 2009 “debater a segurança pública, com a finalidade de colaborar na criação de condições para que o Evangelho seja mais bem vivido em nossa sociedade por meio da promoção de uma cultura de paz, fundamentada na justiça social” (Texto-Base, p. 13).

 

A Campanha da Fraternidade dentro do tempo da Quaresma ganha um sentido específico, pois “Quaresma é tempo de oração, que não só nos leva a reconhecer a presença de Deus em nossa vida e em nossa história, e a nos unir cada vez mais a ele, mas também faz que a nossa esmola seja uma abertura à ação divina e uma forma de vivência mais concreta do seu amor” (Vida Pastoral n.265, p. 14).

 

Deus é amor. Uma premissa verdadeira. Desse amor de Deus, nós como imagem e semelhança d’Ele, somos chamados a vivência concretamente em nosso quotidiano. Um amor sólido, capaz de abrir-se ao outro, pois Deus criou-nos nos amor e é para o amor que devem convergir nossas atitudes. Devemos dizer não a violência, ao ódio e ao rancor. A nossa conduta de cristãos é calcada pelos valores de Cristo Jesus, imagem perfeita do Pai. Cristo nos chama a permanecermos íntegros e integrados, no shalom, isto é, na paz completa. “Shalom significa harmonia consigo mesmo, com o próximo, com a natureza e com o próprio Deus” (Vida Pastoral n.265, p. 18).

 

Vivemos numa sociedade, de certa maneira, injusta, mas nós, os cristãos, somos chamados a sermos testemunhas do Evangelho o qual é fonte da justiça. “Se a nossa justiça não superar a justiça dos fariseus e dos doutores da lei, não entraremos no reino dos céus”, “Com efeito, eu lhes garanto: se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (Mt 5,20). “Nossa sociedade se torna cada vez mais insegura, e a convivência entre as pessoas é cada vez mais difícil e delicada” (Texto-Base, p. 13).

 

Todas as pessoas aspiram por segurança e estão preocupadas com o problema da falta de segurança pública que se manifesta concretamente na violência, no trânsito, nos cárceres, no tráfico de drogas, de armas e de pessoas, nas desigualdades sociais, na fome, na miséria, na corrupção e em muitas outras situações. Essa legítima preocupação deve nos remeter à reflexão sobre tal questão, buscando identificar suas dimensões e suas causas (Texto-Base n.7).

 

O sentimento de insegurança assola a sociedade hodierna, pois diante de tantos acontecimentos injustos, o homem e a mulher pós-moderno se sentem ameaçados em seus valores e, principalmente, em sua integridade. Sabemos, pois que a segurança pública é um dever do Estado, mas isso não nos isenta de nossa responsabilidade, ou seja, do que fazemos pela paz, pela fraternidade, pela solidariedade. Os nossos pequenos atos contribuem para a paz, como também para a violência.

 

Nós “somos seres históricos. Isso significa que somos inseridos e condicionados em uma realidade com dimensões: social, política, cultural, econômica e religiosa” (Texto-Base n.28). Sofremos modificações conforme a realidade que nos cerca, não somos ilha, pelo contrário, estamos “condicionados” a sociedade e suas transformações. “O ser humano não nasceu para viver só” (Texto-Base n.37). Essa vivência implica sabermos lidar com os limites e as potencialidades do “outro”. 

segunda-feira, 7 de julho de 2008

OS LEIGOS NO DOCUMENTO DE APARECIDA

Assim como na Lumen Gentium, os leigos no Documento de Aparecida (DA) são colocados em uma singular importância, haja vista que “os melhores esforços das paróquias neste início do terceiro milênio devem estar na convocação e na formação de leigos missionários” (174). Isso caracteriza o leigo, pois, “só através da multiplicação deles poderemos chegar a responder as exigências missionárias do momento atual” (174). Quem são os leigos? O DA recorrendo a Lumen Gentium 31, coloca que: “os fiéis leigos são: ‘os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei’” (209). E que realizam, de acordo a sua condição “a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” (209). E citando o Documento de Puebla, número 786, afirma que são “homens da Igreja no coração do mundo, e homens do mundo no coração da Igreja”.

Os leigos devem transformar as realidades em que vivem, como também, a criação “de estruturas justas segundo os critérios do Evangelho” (210), uma vez que chamados, também, a “participar na ação pastoral da Igreja, primeiro com o testemunho de vida e, em segundo lugar, com ações no campo da evangelização, da vida litúrgica e outras formas de apostolado, segundo as necessidades locais sob a guia de seus pastores” (211). No qual os pastores, conforme o próprio Documento, devem, sem medo, “abrir para eles [leigos] espaço de participação e confiar-lhes ministérios e responsabilidades em uma Igreja onde todos vivam de maneira responsável seu compromisso cristão (211). Mas, para tal, é necessário uma adequada formação, a qual deve estar ligada ao testemunho de vida de ambos, de quem transmite e de quem recebe esta formação.

Os pastores devem ter uma visão aberta, deixando de lado o clericalismo. “Isso exige, da parte dos pastores, maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o ‘ser’ e o ‘fazer’ do leigo na Igreja, que por seu batismo e sua confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo” (213). A preocupação, como podemos observar, do Documento de Aparecida é com a formação do leigo. A formação como ponto essencial para uma autêntica vivência eclesial no mundo secular.

As paróquias devem investir na formação dos leigos, a fim de que eles sejam bem instruídos e testemunhem com a vida sua missão no mundo secular onde desenvolvem sua atividade. O Documento é incisivo na formação do leigo. Os pastores não devem negar aos leigos o direito em participar de ministérios, os quais não devem ser privados às mulheres. “Garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios que na Igreja são confiados aos leigos, como também instâncias de planejamento e de decisão pastorais, valorizando sua contribuição” (458b).
É bom que o leigo esteja inserido em todo o processo de formação, pois “a presença e contribuição de leigos e leigas nas equipes de formação traz uma riqueza original, pois, a partir de suas experiências e competência, eles oferecem critérios, conteúdos e testemunhos valiosos para aqueles que estão se formando” (281). E mais, eles “cumprem sua responsabilidade evangelizadora colaborando na formação de comunidades cristãs e na construção do Reino de Deus no mundo” (282). Esta formação deve contribuir para a atuação do leigo como discípulo missionário de Cristo Jesus no mundo em que vive.

Os leigos estão inseridos em diversas áreas da sociedade, cultural, política, econômicas, dentre outras. Por isso, o leigo tem um importante papel na Igreja. Ele é chamado a ser luz para o meio em que vive, é chamado a dar testemunho do evangelho no meio em que vive.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A SEXUALIDADE


“Adolescente, olha! A vida é bela!
A vida é bela... e anda nua...
Vestida apenas com o teu desejo”.
Mário Quintana

“Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Luís de Camões

“Na verdade, a coisa mais pornográfica que existe é a palavra ‘pornografia’”.
Mário Quintana


Antes de tudo, vale lembrar que sexualidade é um termo amplamente abrangente que engloba inúmeros fatores e dificilmente se encaixa em uma definição única e absoluta. Está além do conceito. O termo “sexualidade” nos remete a um universo onde tudo é relativo, pessoal e muitas vezes paradoxal. Pode-se dizer que é traço mais íntimo do ser humano e como tal, se manifesta diferentemente em cada indivíduo de acordo com a realidade e as experiências vivenciadas pelo mesmo.

Sexualidade é uma característica geral, experimentada por todo o ser humano e não necessita de relação exacerbada com o sexo, uma vez que se define pela busca de prazeres, sendo estes não apenas os explicitamente sexuais. Pode-se entender como constituinte de sexualidade, a necessidade de admiração e gosto pelo próprio corpo, por exemplo, o que não necessariamente signifique uma relação narcísica de amor incondicional ao ego. A psicanálise Freudiana considera a existência de sexualidade na criança já quando nasce. Propõe a passagem por fases (oral, anal, fálica) que contribuem ou definem a constituição da sexualidade adulta que virá a desenvolver-se posteriormente.

A sexualidade não se trata de fazer uso dos genitais, mas é “toda uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância que proporcionam um prazer irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental (respiração, fome, função de excreção, etc.), e que se encontram a título de componentes na chamada forma normal do amor sexual” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 476). Podemos observar que a sexualidade não pode e nem deve ser reduzida a uma mera manifestação do uso dos genitais[1]. Isso dado que a sociedade atual, sendo ela de um hedonismo desenfreado, quer assim proceder. A sexualidade abrange todo um ciclo de prazeres, os quais são constituintes do ser humano. A sexualidade, na psicanálise, desenvolve uma importância muito grande, pois esta está no desenvolvimento e na vida psíquica do ser humano.

Para melhor compreendermos a nossa sexualidade, é importante compreendermos a transformação pela qual ela passou. Para tal, faz-se necessário expandirmos o conceito de sexualidade. Primeiro partir de uma visão da sexualidade como instinto, ou seja, como “um comportamento pré-formado, característico da espécie, com um objeto (parceiro do sexo oposto) e uma meta (união dos órgãos genitais no coito) relativamente fixos, perceberemos que ela só muito imperfeitamente explica fatos fornecidos tanto pela observação direta como pela análise” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 477). Quer dizer, o instinto é sempre previsível, é característico por manter uma normalidade, enquanto a sexualidade é dinâmica. O instinto é, “classicamente, esquema de comportamento herdado, próprio de uma espécie animal, que pouco varia de um indivíduo para outro, que se desenrola segundo uma seqüência temporal pouco suscetível de alterações e que parece corresponder a uma finalidade” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 241).

“A idéia de sexualidade é de tamanha importância na doutrina psicanalítica que, com justa razão, pôde-se afirmar que todo o edifício freudiano assentava-se sobre ela” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704). A psicanálise tem a sexualidade como fundamento devido ser inerente a todo ser humano, a ser própria da condição humana. A sexualidade é, por assim dizer, o combustível que alimenta a vida humana. É o dinamismo da vida. A sexualidade faz do ser humano o que ele, realmente é, humano. Isso diferencia-o, também, dos outros animais. Sendo a sexualidade do ser de todos nós, é ela, também, a causa “primária da gênese dos sintomas neuróticos. Daí a criação da sexologia como ciência biológica e natural do comportamento sexual” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704).

A noção de sexualidade como disposição psíquica deu-se graças a Freud, extirpando assim o fundamento biológico, anatômico e genital e fez da sexualidade a própria essência da atividade humana. “Portanto, é menos a sexualidade em si mesma que importa na doutrina freudiana do que o conjunto conceitual que permite representá-la: a pulsão, a libido, o apoio e a bissexualidade” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704). Obviamente, Freud não inventou uma terminologia particular para distinguir
os dois grandes campos da sexualidade: a determinação anatômica, por um lado, e a representação social ou subjetiva, por outro. Não obstante, por sua nova concepção, ele mostrou que a sexualidade tanto era uma representação ou uma construção mental quanto o lugar de uma diferença anatômica. Em conseqüência disso, sua doutrina transformou totalmente a visão que a sociedade ocidental tinha da sexualidade e da história da sexualidade em geral (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704).

Como já foi mencionado anteriormente, reduzir a sexualidade aos genitais é, sem sombra de dúvida, uma ignorância grotesca. Sabemos da importância da simbologia que eles trazem consigo, como por exemplo, biblicamente, é nos genitais que Deus marca ou corta a sua aliança. “E é a extremidade do pênis, o prepúcio, o lugar que Deus escolherá para marcar ou ‘cortar’ sua aliança com Abraão, no gesto da circuncisão” (MIRANDA, 2000, p. 98). E mais,
Ele envolve e relaciona tanto os órgãos sexuais reprodutores masculinos e femininos (pênis, vagina, testículos, útero, ovários) como a parte da bexiga, que acolhe o fruto da transmutação do sangue em água, símbolo dos milagres diluvianos, batismais e pascais. A importância do universo simbólico dos órgãos sexuais na Bíblia é dada pelo fato de que é no sexo que Deus encontra o lugar para marcar (cortar) sua aliança com os homens, com a circuncisão. Eminentemente ternário (um pênis e dois testículos) o órgão sexual masculino, ao encontrar-se com o feminino quaternário (quatro lábios da vagina), gera a totalidade e a perfeição do número sete (MIRANDA, 2000, p. 98).

Vale lembrar que não é possível tratar em minúcias os detalhes desta tão rica simbologia bíblica, como também, “toda a riqueza simbólica do plexo urogenital” (MIRANDA, 2000, p. 98).

Como mencionado anteriormente, para compreendermos a sexualidade é preciso observamos outras “forças” que convergem em nossa vida, dando origem a esta força vital chamada sexualidade. Por exemplo, libido, pulsão, como também, o processo de formação da personalidade da pessoa com seus altos e seus baixos, afinal os altos e baixos constituem o que somos. Entendemos por LIBIDO a “energia como substrato das transformações da pulsão sexual quanto ao objeto (deslocamento dos investimentos), quanto à meta (sublimação, por exemplo) e quanto à fonte da excitação sexual (diversidade das zonas erógenas) (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 265-6). Por PULSÃO, entendemos o “processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz o organismo tender para um objetivo (LAPLANCHE; PONTALIS, p. 394).
Pe. José Roberto, C.Ss.R.
Zezinho





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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
LAPLANCHE, Jean; PLON, J-B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Corpo. Território do sagrado. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
ROUDINESCO, Elisabet; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
[1] Para a psicanálise, a sexualidade é a significação sexual a qualquer ato da vida, a qualquer gesto, qualquer palavra (cf. ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

SOBRE A CRISMA

Conforme a Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia, no número 59, atesta-nos que os sacramentos “destinam-se à santificação dos homens, para a edificação do corpo de Cristo e, enfim, para prestar culto a Deus. Como sinais, destinam-se também a instrução”. O Sacramento da Crisma, juntamente com o Batismo e a Eucaristia constitui o conjunto dos sacramentos da iniciação cristã, no qual sua unidade deve ser salvaguardada. Pelo Sacramento da Crisma, os fiéis são vinculados mais perfeitamente a Igreja, pois tem sua dimensão eclesial, enriquecidos de força especial do Espírito Santo, e assim mais estritamente obrigados a fé que, como testemunhas de Cristo, devem difundir e defender tanto por palavras como por obras.

É no Sacramento da Crisma que se recebe a maturidade da vida espiritual, por assim dizer, ou seja, o fiel é fortalecido pelo Espírito Santo que o torna capaz de defender a fé, de vencer as tentações, de procurar a santidade com todas as forças da alma. Pelo batismo, nasce-se, pela crisma cresce na vida da graça. É, também, no Sacramento da Crisma que se recebe os sete dons do Espírito Santo: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Piedade, Ciência e Temor de Deus. Eles são dons que nos aproximam de nossa vocação a santidade.

Quando se recebe o Espírito Santo e se abre inteiramente a graça sacramental, a ação da pessoa passa a ser uma ação divina, pois Deus faz-nos instrumentos de sua ação. Por isso, podemos considerar o crismando uma pessoa com grandes responsabilidades. Diz-se por aí que no Batismo recebemos o Espírito Santo e nos tronamos de criaturas para filhos. Já na Crisma dizemos com consciência: “Quero ser filho de Deus e assumir a minha missão de evangelizar”.

No dia de Pentecostes, os discípulos receberam o Espírito Santo, é, pois, o mesmo Espírito que os crismandos recebem no dia de sua Crisma, por isso, tem a mesma autoridade que os discípulos tinham em anunciar a Palavra de Deus. “Os apóstolos que estavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria acolhera a Palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João” (At 8,14). O dia da Crisma é sem dúvida o dia de Pentecostes para quem está sendo crismado, onde o Espírito Santo é enviado para transformar e santificar.

Por fim, o Sacramento da Crisma é o sacramento que aumenta, por assim dizer, o amor de Deus em nossos corações. Ao sair da celebração da crisma, o crismado passa a ser “soldado de Cristo”, tem o coração aberto para muitas e novas graças, capaz de amar a Deus com muito mais entusiasmo e força. É a ação do Espírito Santo que realiza tamanha graça.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

"DURA LEX"

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA HIERARQUIA DO PODERIO
José Roberto M. Ramos – Zezinho


Estava com um colega na Faculdade quando surgiu um assunto sobre hierarquia. Eu lhe perguntava se em seu meio, movimento eclesial ao qual ele faz parte, se tinha uma hierarquia forte, isto é, em estado de submissão. Ele me disse que, teoricamente, sim. Então resolvi colocar as minhas, poucas, idéias sobre o assunto no papel. Aliás, amo fazer este exercício, pois nas palavras correm os meus pensamentos, aquilo em que creio e acredito, onde muitas vezes as palavras ditas e o gestos não conseguem externar. Mas, as palavras não, estas dão o recado, dizem para que foram escritas. É magia que o humano faz, é bruxaria – que a fogueira não me ouça – que não necessita ser bruxo para fazê-la.

Primeiramente, observarmos o que a Igreja diz a respeito da hierarquia a partir da Lumen Gentium – luz dos povos – constituição sobre a eclesiologia. No capítulo III, que trata diretamente sobre tal tema, aparece da seguinte maneira: «Cristo nosso Senhor, com o fim de apascentar o povo de Deus e aumentá-lo sempre mais, instituiu na sua Igreja vários ministérios que se destinam ao bem de todo o corpo» (cf. n.º 18). Neste proêmio podemos constatar que não há uma hierarquia enquanto divisão de poder temporal, isto é, na função de status, quem pode mais e quem obedece. Cristo Cabeça rege todo o corpo que é sua Igreja. A sua Igreja, obviamente, encontra-se na terra. Encarnada. Por isso, tem suas manifestações sociais, culturais. É neste encontro, entre a dimensão espiritual com a temporal da Igreja, que se dá, ou melhor, se faz a grande confusão.

Muitos fazem menção a «eleição» dos apóstolos como sendo a base da hierarquia. A instituição dos Doze não significa, no mundo bíblico, a eleição privilegiada de uns para estar com Jesus, pelo contrário, a constituição dos Doze é, simbolicamente, a união de todos os povos. Podemos constatar, por exemplo, em Pentecostes:

Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; 2 de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. 3 E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. 4 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. 5 Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. 6 Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7 Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? 8 E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? 9 Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, 10 da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, 11 tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus? 12 Todos, atônitos e perplexos, interpelavam uns aos outros: Que quer isto dizer? 13 Outros, porém, zombando, diziam: Estão embriagados! (Atos 2, 1-13).

Antes do dia de Pentecostes – qüinquagésimo dia – há a eleição daquele que substituiria Judas. Observemos que não há uma preocupação quem seria este décimo segundo, mas há um interesse em completar, fechar o número «doze» para que o Espírito Santo se manifeste e autorize todos os «homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu», a anunciar a Boa Notícia. O Texto (cf. Atos 1, 13-14) ainda acrescenta além da reunião dos apóstolos as mulheres: «Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele» (At 1, 14). Atualmente, as mulheres não têm nem voz, nem vez. Fruto da hierarquização, ou melhor, da institucionalização da hierarquia. Sabemos que em qualquer segmento humano de grupo, necessita-se, obrigatoriamente, de uma hierarquia, pois se não vira anarquia. Mas hierarquia não deve ser confundida com autoritarismo e discriminação de outrem, pelo contrário, deve estar ao serviço.

Falando no esquecimento das mulheres pela hierarquia eclesiástica, vem ao meu pensamento a Carta de Paulo aos Romanos, «Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive. Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus» (Rm 12, 1-3). Eram as diaconisas que exerciam um papel singular na Igreja Primitiva. Hoje, não podem... Quem instituiu esta proibição? Olhemos Jesus, como gostava de estar na companhia das mulheres e mulheres de «má fama» na sociedade da época, entre elas Maria Madalena, a qual compreendeu a mensagem do amor que está acima da lei. «Amar não é projetar-se no outro ou naquilo que é. Amar é deixar ser» (Jean-Yves Leloup. O romance de Maria Madalena. Uma mulher incomparável. Verus, p. 65) ou como diria Fernando Pessoa através de seu heterônimo Alberto Caeiro:

Todos os dias agora acordo com alegria e pena. Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava. Tenho alegria e pena porque perco o que sonho e posso estar na realidade onde está o que sonho. Não sei o que hei de fazer das minhas sensações. Não sei o que hei de ser comigo sozinho. [...] Quem ama é diferente de quem é. É a mesma pessoa sem ninguém.

A observância da lei pela lei, era uma prática dos fariseus, homens que cumpria rigorosamente todas as prescrições a ponto de torná-las maiores do que o humano. Jesus inverte esta realidade de seu tempo, mostra-se um Homem acessível, agradável, cheio de afetos. Pedro experimentou esta ternura de Cristo, pois como sabemos, por meio do evangelho, Pedro era Zelota. Os Zelotas eram homens formados para as batalhas, analogicamente, seria como os espartanos, os bárbaros. Jamais um Zelota conhecia a dimensão do amor manifestado, da ternura vivida. No entanto, Pedro aprendeu a linguagem do amor e chorou. Chorou amargamente por ter «negado» conhecer o amor de sua vida, Jesus. É! o amor e a ternura deixa-nos bobos! «A ternura é um sentimento que se comunica na medida em que é encarnado; não se ensina, se testemunha» (Carlo Rochetta. Teologia da Ternura. Paulus). Que bonito os cristãos serem bobos! Pois convertem com a vida, com o testemunho. Na época do Imperador Juliano, ele instituiu serviços a partir da vida dos cristãos. O serviço que os cristãos prestavam a sociedade provocou o imperador que nem era cristão.

Voltemos ao mundo bíblico e analisemos a famosa passagem em que se baseiam as mentes hierárquica-ditatorial daqueles que se mostram ovelhas, mas são lobos e a «boca é mais macia que a manteiga, porém no coração há guerra; as suas palavras são mais brandas que o azeite; contudo, são espadas desembainhadas» (Salmos 55, 21). Conforme Mateus 5, 17, «Não penseis [diz Jesus] que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento». Primeiro não podemos tomar este versículo isoladamente. Uma leitura responsável deve ser feita dos capítulos 5 ao 7. No início do capítulo 5, encontramos a ética do Novo Testamento, se assim podemos dizer, o Sermão da Montanha. No Pentateuco tem-se o Decálogo.

No final do capítulo 5 diz Jesus: «Portanto, deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é Perfeito» (versículo 48). A perfeição da qual Jesus nos pede é que busquemos Deus como nosso absoluto, A Perfeição. O Deus de Jesus, Aquele que «faz chover sobre bons e maus». Que não faz acepção de cor, etnia, sexo ou condição financeira. Aquele Deus que podemos bocejar A-B-B-A! Para nós, baianos, «painho»! Aquele Deus que podemos «deitar» no colo. Lembrei-me do filme Kiriku. Há um momento em que ele consegue driblar a guarda da feiticeira e vai até o ancião sábio. Lá, depois de conversarem, Kiriku diz que está cansado. O ancião o coloca no colo e faz com que o garoto sinta-se seguro e restaure suas forças. Assim é Deus, coloca-nos em seu colo e nina-nos!

O homem não está para a lei, a lei está para o homem. A lei deve orientar a humanidade e ela tem que existir. Ela não pode ser maior, e não é, do que a pessoa humana em sua dignidade. Ela não está para justificar as mazelas cometidas em nome de boa ação. Como diz um adágio popular, «de boas intenções o inferno está cheio». Coitado do capeta!

Por trás da hierarquia está a lei. A lei que serve para justificar atos desumanos e, da forma que se manifesta, sem fundamento. São Paulo ao escrever aos Romanos recomenda: «Portanto nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da lei» (Rm 3, 28).

A hierarquia que devemos pensar é a de Cristo Cabeça, nós os membros, pois formamos um só corpo. Jesus o Pastor que caminha conosco, em nosso meio, Shekinah-Emanuel. Esta é a dimensão, vejo assim, de uma hierarquia, de uma ordem dentro da comunidade cristã. E porque não, na sociedade, pois humanizar-se é de todo humano. Parece pleonasmo, redundância, mas não é. É que nós perdemos a característica do humano, perdemos o referencial e mais, deixamos de querer o essencial, amar e ser amado.