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segunda-feira, 8 de março de 2010

Amizade, casamento de almas!


Encontro-me sozinho com os meus pensamentos, os quais são como flashes, relâmpagos. Agem numa velocidade incrível. Assim são os pensamentos. Dentre muitos, há os que me assolam no momento. Meu Deus! Tem um que está fazendo cócegas em minhas ideias, a amizade. Já escrevi algo sobre a amizade num outro momento. Mas como ela sempre volta aos meus pensamentos, resolvi escrever sobre ela novamente. Volto a repetir, não tenho receitas prontas acerca do que seja esta nobre realidade do humano.
Lendo Rubem Alves, “E aí? Cartas aos adolescentes e a seus pais”, uma frase me chamou a atenção. Na verdade ele, Rubem, cita uma letra da música de Roberto Carlos: “Eu quero ter um milhão de amigos”. Sempre fui da mesma opinião de Rubem, “a amizade requer tempo”. Concordo. É também minha opinião sobre a amizade. Como poderemos dar tempo a milhões de amigos. A amizade é algo seleta por ela mesma. Requer reciprocidade, casamento de almas, um ser um eu no tu, sem que ambas as partes percam suas individualidades. É mais do que um estar juntos, é um namoro entre duas almas que se deram, sem reservas, uma a outra. Não se trata de uma disfunção da sexualidade, como os hipócritas , diria Jesus, quer ver. É um prazer incomensurável, que não se restringe a corporeidade, mas sim a uma realidade ontológica, transcendente. Foge, escapa da reles razão. É uma realidade que só entende quem a vive. Camões percebeu e narrou em seu soneto: “Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade se tão contrário a si é o mesmo amor?”. Parece paradoxal, mas é tão profundo que as palavras, as mais belas possíveis, não conseguem dizer como é ou o que seja a amizade, parafraseando Luís de Camões, diria: “é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”.
A amizade é tão profunda que não conseguimos dizer, nem ensaiar, o que seja. Só vai compreender quem vivê-la, do contrário verá uma “frescura”, um “grude”. Lembro que é característica da amizade o desejo, insaciável, de está juntos, de compartilhar momentos, os mais “bobos”. Assim é a amizade. Muitos preferem ver a amizade como algo pegajoso, a estes cito-lhes o livro de primeiro Samuel, capítulo 18, versículo 1: “a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma”. É mais do que um simples encontro, é um, como já mencionei acima, casamento de almas, onde uma toca a outra sem usurpar. Que grandiosidade é a amizade. O que se ligou a Davi não foi puramente o racional de Jônatas, mas e, principalmente, o transcendente, a alma. O que havia de mais profundo em Jônatas, tanto assim que Davi vai dizer que “caíram os poderosos, no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi morto. Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres” (2Samuel 1,25-26). Que coragem de Davi assumir esta verdade: “Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres”. Hoje, na sociedade em que vivemos, assumir isso, poderia algum hipócrita - ‘Upokrith,j (ripokrités) – gritar que esteja acontecendo um declínio do machismo caduco. Mas quem é amigo pode, deve, ter consciência disso, que o amor do amigo é excepcional. Chamo-os de hipócritas, quem age assim, por está sendo simulado, falso. Uma vez que sabe que há este desejo, esta vontade de amar com a alma alguém, mas em nome da rudez não se permite. E, pior em nome do que os outros vão pensar. Dane-se aquilo que os outros vão pensar. No uso da liberdade, devemos agir com o coração, realizar o que sentimos.
Ponho-me a imaginar que amigo especial deve ter sido Jesus. Ele afirmou: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo 15,15). Meu Deus! Que amigo! Deu-se a conhecer totalmente. Percebemos isto na expressão, “porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”. A pequena partícula “tudo”, significa todo o Projeto de Deus. Não houve reservas de Jesus para com seus amigos. Falou-lhes às claras, falou-lhes do seu âmago. Assim são os amigos, revela-nos sua intimidade e conhece a nossa. Perante um amigo, ficamos despidos de qualquer entrave humano, ele nos conhece integral e totalmente. Para isso custa-nos, pois só agirá assim quem é realmente amigo.
O viver a amizade não é para todos. Exige uma investida de nossa parte. Isso não é fácil, é, sem sombra de dúvida, uma saída de nós mesmos para encontrar um tu e formamos um nós. É amar o outro do jeito que ele é, sem querer moldá-lo à nossa maneira. É custoso, mas prazeroso. Devemos ser mais amigos do que esperar amizade. Veio-me a oração atribuída a São Francisco de Assis quando diz: “Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado”. Podemos rezar assim: “ser mais amigo do que esperar amizade”. Realmente só um místico para interiorizar isso e rezar com a alma. Há uma canção, não conheço a autoria, que diz: “fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas”. Seja amigo, dê a amizade.
A você que tem um amigo, não tenha medo de dizer que o ama, que suas almas se encontraram e mais, casaram-se. Não tenha medo de assumir seu amor pelo amigo, lembre-se de Davi e Jônatas, “mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres”. Acrescento ainda com as palavras de Jesus. “E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer” (Lc 12,4). Não devemos ficar pensando naquilo que os outros poderão pensar de nós. Como disse Jesus, poderão até matar o corpo, mas nunca nos tirará o prazer da alma, a liberdade conquistada. Aristóteles em Ética a Nicômaco, diz que a amizade é mais fácil surgir entre os jovens do que nos mais velhos, pois quando chegar a velhice terá um amigo adquirido na juventude. Com esta idéia aristotélica, lembrei-me da carta de Epicuro a Meneceu quando diz: “porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito”. Para atingir o alto grau da amizade só com o passar dos anos. No início poderá surgir o desejo da amizade, o que faz parte de sua lógica, mas ela mesma, só surgirá com o passar do tempo. Quando for provada.
A amizade, por si só, faz sua seleção. Não haverá muitos amigos ao seu redor. “Sejam numerosas as tuas relações, mas os teus conselheiros, um entre mil” (Eclesiástico 6,6). Sabedoria do livro de Eclesiástico. Teremos muitas pessoas queridas de quem nós gostaremos e que gostarão de nós. Mas amigo, este será um em um milhão e olhe lá. É comum ouvirmos: “meu amigo de infância”. Será? Amizade nunca finda. Quando “ela” findar é porque nunca principiou. Houve o desejo, que é uma de suas etapas, mas não a amizade. Como diz o adágio popular: “entre a amizade pode haver mil vírgulas, mas nunca um ponto final”.
Anos idos, não me recordo quando, recebi um cartãozinho que dizia que “nem todo irmão é um amigo, mas todo amigo é sempre um bom irmão”, não é que isso está no livro dos Provérbios, capítulo 18, versículo 24. Está lá. “Há amigos que levam a ruína, e há amigos mais queridos do que irmão”. Por isso não se espante quando tiver um sentimento maior por um amigo do que por seu irmão. Amigo é amigo. A nossa tendência é nos sentirmos culpados por gostar mais de um amigo do que o irmão, pois dado que o irmão é sangue do meu sangue. A sensação de que pertencendo a consanguinidade deva gostar mais. O que não acontece quando encontramos um amigo. E isso as vezes pode deixar um desconforto interno. Quando sabemos, com a vida, o que é a amizade, isso não nos incomoda, pelo contrário ratifica.
Ambrósio vê a amizade como a realidade mais bela da terra. “A amizade deve ser constante, perseverante no afeto: não devemos como as crianças, mudar os amigos, seguindo a volubilidade dos sentimentos... Conservai, portanto, ó filhos, a amizade que haveis contraído com vossos irmãos, porque essa é a mais bela entre as realidades daqui debaixo”. As vezes, falta-nos palavras para expressar o que não é a amizade, por isso faz-se uso de alguns termos, como por exemplo, o que disse Ambrósio, “não devemos como as crianças, mudar os amigos”. Claro que, como falara anteriormente, uma vez amigo sempre amigo. Quando a amizade principia se torna eterna. Não há fim. Se findar é porque não principiou.
A amizade, coloca Carlo Rocchetta, “tem necessidade da ternura como dileção, refinada sensibilidade, disponibilidade para dar e receber afeto mútuo, ajuda recíproca”. Só aos sensíveis será dada a capacidade da percepção da intimidade do outro. A sensibilidade não diz respeito a gênero, se homem ou mulher, mas a todo ser humano. Pois a nossa cultura não admite ao homem ser sensível, pois isso vão dizer os sem estruturas psíquicas, “é coisa de mulher”. Pobre dos que pensam assim. Estaria negando sua humanidade. A sensibilidade é intrínseca a humanidade. Penso que só seremos divinos quando atingirmos o alto grau da humanidade. Aí você chama do que quiser: êxtase, transe, divinização. Só sei que é divinamente humano.
Por fim, a amizade é um adentrar no mais profundo do outro. É estar dentro do outro. Finalizo com as palavras de Khalil Gibran: “Se o amigo vos confia seu pensamento, não lhe escondais o vosso. Quando ele cala, vosso coração não cessa de ouvi-lo, porque na amizade cada pensamento, desejo ou esperança nasce em silêncio e se comporta com alegria”.
José Roberto Miranda Ramos
Zezinho

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