
Jornal Gazeta da Lapa, Ed. 065. out / 09. mat. / entrevista / pe.Zezinho/ jornalista / Ispedito Nunes.
ENTREVISTA COM O PADRE ZEZINHO
ENTREVISTA:
Gazeta da Lapa – Onde e como o senhor viveu a sua infância?
Padre Zezinho – Vivi minha infância em minha cidade natal, Conceição do Coité, que fica a 210 Km da capital Salvador. Procurei, mesmo sem ter noção na época, viver minha infância de maneira sadia, como qualquer garoto de uma cidade do interior. Brinquei muito, fui criança, aproveitei o tempo. A coisa que eu levava mais a sério era a brincadeira. Por isso, vejo, hoje, com saudades minha infância. Fui o que tinha que ser.
Gazeta da Lapa – Houve alguma forma de reprovação ou resistência quanto à sua vocação religiosa quando aconteceu a descoberta?
Padre Zezinho – Rejeição quanto a minha vocação não, houve sim, comentários, os quais as vezes sem fundamentos. Mas não dei ouvidos.
Gazeta da Lapa – Quais foram os caminhos percorridos pelo padre Zezinho até chegar em Bom Jesus da Lapa?
Padre Zezinho – A minha caminhada vocacional ao sacerdócio começou a partir do momento em que escrevi para o secretariado vocacional redentorista. Isso em 1998. 2000, entrei no seminário aqui na cidade de Bom Jesus da Lapa, no ano seguinte, transferir-me para Salvador para estudar Filosofia, onde fiquei até 2002. 2003, passados dois anos fui morar em Goiânia. Passei um ano e voltei a Salvador para cursar a Teologia. Em 2007, 28 de outubro, em Salvador, recebi a ordenação diaconal. No dia 26 de abril de 2008, na minha cidade natal, Conceição do Coité, fui ordenado sacerdote pelas orações e imposição das mãos de Dom Gregório Paixão, bispo auxiliar de Salvador. Em setembro de 2008, transferiram-me da cidade de Senhor do Bonfim para Bom Jesus da Lapa.
Gazeta da Lapa – O senhor é do tipo que lê muito, pesquisa e se atualiza pra contextualizar a evangelização. O que te levou a tomar essa linha de pregação?
Padre Zezinho – Cristo viveu uma época de muita marginalização, de uma exclusão cruel. Ele compreendeu e leu o seu tempo. Falou de Deus encarnado na história. A linha de pregação que tomei, é baseado em Cristo. Lendo os evangelhos, faço-me uma pergunta antes de cada missa, o que o evangelho lido tem a ver com o dia-a-dia meu e das pessoas que me ouvirão. Daí, tiro as implicações para o hodierno. O que Cristo falaria neste contexto. Sabemos, pois, que aconteceram mudanças radicais, com a técnica, a cibernética, a sociedade tomou outros rumos. Como falar de Deus em meio a tudo isso. Contar as histórias do passado, falar de um Deus que não interpela com o ser humano não é minha linha de pensamento. Por isso, falo das coisas rotineiras, da realidade de cada um. Com isso, sei que corro o risco de algumas pessoas se espantarem por não terem costume de ouvir o que falo, mas tudo tem seu preço, foi para isso que fui formado, para dar o melhor de mim sem querer agradar gregos e troianos. É verdade, leio bastante para poder discernir melhor o caminho de Deus. Gosto de poesia, poema, sonetos, músicas. Acredito que os poetas lêem em uma linguagem simbólica nossa realidade. Vejo a Bíblia como um enorme livro de poemas e poesias de um Deus apaixonado pela sua criatura. Vejo Jesus como um grande poeta, leu, como ninguém, a “alma humana” e revelou-nos um Deus humano cheio de afeto e de ternura.
Gazeta da Lapa – Suas homilias são sempre recheadas de citações clássicas de autores celebres, literatos, filósofos, compositores, psicólogos, etc. Essa é uma nova tendência da Igreja Católica, ou apenas a sua capacidade de mudar segundo as necessidades da sua Paróquia?.
Padre Zezinho – Não diria que seja uma tendência da Igreja, mas uma coisa pessoal. Como falei acima, nas belas canções, encontro composições que resumem meu pensamento. Por exemplo, a máxima que quero viver encontrei numa composição de Victor Garcia, cantada por Mercedes Sosa, intitulada Sólo Le pido a Dios (Eu só peço a Deus), diz um trecho da música: Sólo le pido a Dios que el dolor no me sea indiferente, que la reseca muerte no me encuentre vacío y solo sin haber hecho lo suficiente. (Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria). Isso é o que procuro viver todos os dias. Na letra da música, encontrei o que pensava de forma profunda e sintética. Que capacidade tem os poetas! Na Filosofia, encontro os meios pelos quais o meu raciocínio é levado a perceber a diferença entre o essencial e o secundário. É um estado de espírito. Na psicologia, não que ela detenha o todo, encontro caminhos para me ajudar a compreender melhor minhas manifestações e as de outrem. Repito, ela não é máxima da leitura do ser humano. O humano é maior do que todas as ciências, as tecnologias, como me falou meu amado amigo.
Gazeta da Lapa – O seu tipo de pregação esta sendo considerado em sua Paróquia, como inovador na Igreja Católica. O senhor acha que os fiéis contemporâneos dormem nas homilias com base exclusivas nas três leituras da missa
Padre Zezinho – Não nego que já ouvi comentários sobre minhas homilias, algumas favoráveis outras não, mas não me cai nenhum cabelo por causa disso. As pessoas, uma boa parte, não percebem que mesclo todas as leituras numa linguagem contextualizada. Não fico repetindo as palavras das leituras, isso ouviram durante a proclamação da Palavra. A homilia, vejo, é para elucidar o que foi dito, é para transpor o que aconteceu para a atualidade. Procuro, nas homilias, chamar a atenção de todos sobre uma única coisa adormecida em nós, o amor. As pessoas vivem a superficialidade das relações e pensam que amam. Esvaziam a palavra amor. Faço minha as palavras de Luís de Camões: “Amor é um fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”. Amar é amar. Não tem razões e não tem porquês, como diria Carlos Drummond de Andrade. Tento demonstrar que Deus é amor, tento dizer para as pessoas que sintam isso, que não fiquem só na palavra, mas que transcendam. Quanto ao dormir durante as homilias, sem querer ter falsa modéstia, até hoje durante as missas que presido não percebi isso ainda. Pelo contrário, vejo os fiéis atentos e de olhos arregalados, talvez pela forma como celebro.
Gazeta da Lapa – Qual a sua opinião sobre o Santuário de Bom Jesus da Lapa?
Padre Zezinho – Sem sombra de dúvida é uma obra magna da natureza. Percebo que o lapense não dá o devido valor a esta obra graciosa que é o Santuário. Mas, vou e volto, geralmente, nós quando temos algo não sabemos dar valor. No que diz respeito à romaria, vejo-a como manifestação de uma fé simples, mas enriquecida de sentimentos verdadeiros. O romeiro do Bom Jesus tem grandes diferenças dos romeiros de outros lugares sagrados. É um romeiro muito espontâneo, simples. Um romeiro que dialoga com o Bom Jesus. O que o faz diferente, impar.
Gazeta da Lapa – E sobre esta cidade?
Padre Zezinho – A cidade de Bom Jesus da Lapa por ser uma cidade turística, deveria ter melhores acessos, melhor infra-estrutura, melhor planejamento. Uma outra coisa, é que percebo o descaso do poder público, seja ela municipal, estadual e pior federal. Por exemplo, a saúde, qualquer exame simples, que não seja o laboratorial, aqui não se faz. Qualquer pessoa que tenha um caso mais grave de saúde, nem tão grave assim, é levada para as cidades da região. A cidade da Lapa, por ser longe de grandes cidades, deveria ter uma melhor assistência médica. Em síntese, basta olharmos o caos em que se encontram as nossas rodovias.
Gazeta da Lapa – Dentre os seus paroquianos ou até mesmo algum confrade já lhe interpelaram quanto a sua forma de celebrar?
Padre Zezinho – Já, tanto entre os paroquianos quanto aos confrades. Mas faz parte, nada que me tire o sono. Vejo como algo positivo, pois é bom ser diferente, isso me deixa em êxtase, sou diferente.
Gazeta da Lapa – O que o senhor acrescentaria a esta entrevista, que não lhe foi questionado?
Padre Zezinho – Acrescentaria que vou continuar com a forma de evangelizar que venho tendo, mesmo que algumas pessoas não compreendam. Que prefiram estar pelas “bordas” do que ir ao centro. Devo dar o melhor de mim, não agir na lei do menor esforço. Por fim, agradeço ao jornal Gazeta da Lapa, na pessoa de Ispedito Nunes, pela entrevista e dedico esta entrevista, como tudo em minha vida, ao meu amado amigo. Ponho-me a disposição da comunidade lapense e aberto, inclusive, a comentários.
ENTREVISTA COM O PADRE ZEZINHO
ENTREVISTA:
Gazeta da Lapa – Onde e como o senhor viveu a sua infância?
Padre Zezinho – Vivi minha infância em minha cidade natal, Conceição do Coité, que fica a 210 Km da capital Salvador. Procurei, mesmo sem ter noção na época, viver minha infância de maneira sadia, como qualquer garoto de uma cidade do interior. Brinquei muito, fui criança, aproveitei o tempo. A coisa que eu levava mais a sério era a brincadeira. Por isso, vejo, hoje, com saudades minha infância. Fui o que tinha que ser.
Gazeta da Lapa – Houve alguma forma de reprovação ou resistência quanto à sua vocação religiosa quando aconteceu a descoberta?
Padre Zezinho – Rejeição quanto a minha vocação não, houve sim, comentários, os quais as vezes sem fundamentos. Mas não dei ouvidos.
Gazeta da Lapa – Quais foram os caminhos percorridos pelo padre Zezinho até chegar em Bom Jesus da Lapa?
Padre Zezinho – A minha caminhada vocacional ao sacerdócio começou a partir do momento em que escrevi para o secretariado vocacional redentorista. Isso em 1998. 2000, entrei no seminário aqui na cidade de Bom Jesus da Lapa, no ano seguinte, transferir-me para Salvador para estudar Filosofia, onde fiquei até 2002. 2003, passados dois anos fui morar em Goiânia. Passei um ano e voltei a Salvador para cursar a Teologia. Em 2007, 28 de outubro, em Salvador, recebi a ordenação diaconal. No dia 26 de abril de 2008, na minha cidade natal, Conceição do Coité, fui ordenado sacerdote pelas orações e imposição das mãos de Dom Gregório Paixão, bispo auxiliar de Salvador. Em setembro de 2008, transferiram-me da cidade de Senhor do Bonfim para Bom Jesus da Lapa.
Gazeta da Lapa – O senhor é do tipo que lê muito, pesquisa e se atualiza pra contextualizar a evangelização. O que te levou a tomar essa linha de pregação?
Padre Zezinho – Cristo viveu uma época de muita marginalização, de uma exclusão cruel. Ele compreendeu e leu o seu tempo. Falou de Deus encarnado na história. A linha de pregação que tomei, é baseado em Cristo. Lendo os evangelhos, faço-me uma pergunta antes de cada missa, o que o evangelho lido tem a ver com o dia-a-dia meu e das pessoas que me ouvirão. Daí, tiro as implicações para o hodierno. O que Cristo falaria neste contexto. Sabemos, pois, que aconteceram mudanças radicais, com a técnica, a cibernética, a sociedade tomou outros rumos. Como falar de Deus em meio a tudo isso. Contar as histórias do passado, falar de um Deus que não interpela com o ser humano não é minha linha de pensamento. Por isso, falo das coisas rotineiras, da realidade de cada um. Com isso, sei que corro o risco de algumas pessoas se espantarem por não terem costume de ouvir o que falo, mas tudo tem seu preço, foi para isso que fui formado, para dar o melhor de mim sem querer agradar gregos e troianos. É verdade, leio bastante para poder discernir melhor o caminho de Deus. Gosto de poesia, poema, sonetos, músicas. Acredito que os poetas lêem em uma linguagem simbólica nossa realidade. Vejo a Bíblia como um enorme livro de poemas e poesias de um Deus apaixonado pela sua criatura. Vejo Jesus como um grande poeta, leu, como ninguém, a “alma humana” e revelou-nos um Deus humano cheio de afeto e de ternura.
Gazeta da Lapa – Suas homilias são sempre recheadas de citações clássicas de autores celebres, literatos, filósofos, compositores, psicólogos, etc. Essa é uma nova tendência da Igreja Católica, ou apenas a sua capacidade de mudar segundo as necessidades da sua Paróquia?.
Padre Zezinho – Não diria que seja uma tendência da Igreja, mas uma coisa pessoal. Como falei acima, nas belas canções, encontro composições que resumem meu pensamento. Por exemplo, a máxima que quero viver encontrei numa composição de Victor Garcia, cantada por Mercedes Sosa, intitulada Sólo Le pido a Dios (Eu só peço a Deus), diz um trecho da música: Sólo le pido a Dios que el dolor no me sea indiferente, que la reseca muerte no me encuentre vacío y solo sin haber hecho lo suficiente. (Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria). Isso é o que procuro viver todos os dias. Na letra da música, encontrei o que pensava de forma profunda e sintética. Que capacidade tem os poetas! Na Filosofia, encontro os meios pelos quais o meu raciocínio é levado a perceber a diferença entre o essencial e o secundário. É um estado de espírito. Na psicologia, não que ela detenha o todo, encontro caminhos para me ajudar a compreender melhor minhas manifestações e as de outrem. Repito, ela não é máxima da leitura do ser humano. O humano é maior do que todas as ciências, as tecnologias, como me falou meu amado amigo.
Gazeta da Lapa – O seu tipo de pregação esta sendo considerado em sua Paróquia, como inovador na Igreja Católica. O senhor acha que os fiéis contemporâneos dormem nas homilias com base exclusivas nas três leituras da missa
Padre Zezinho – Não nego que já ouvi comentários sobre minhas homilias, algumas favoráveis outras não, mas não me cai nenhum cabelo por causa disso. As pessoas, uma boa parte, não percebem que mesclo todas as leituras numa linguagem contextualizada. Não fico repetindo as palavras das leituras, isso ouviram durante a proclamação da Palavra. A homilia, vejo, é para elucidar o que foi dito, é para transpor o que aconteceu para a atualidade. Procuro, nas homilias, chamar a atenção de todos sobre uma única coisa adormecida em nós, o amor. As pessoas vivem a superficialidade das relações e pensam que amam. Esvaziam a palavra amor. Faço minha as palavras de Luís de Camões: “Amor é um fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”. Amar é amar. Não tem razões e não tem porquês, como diria Carlos Drummond de Andrade. Tento demonstrar que Deus é amor, tento dizer para as pessoas que sintam isso, que não fiquem só na palavra, mas que transcendam. Quanto ao dormir durante as homilias, sem querer ter falsa modéstia, até hoje durante as missas que presido não percebi isso ainda. Pelo contrário, vejo os fiéis atentos e de olhos arregalados, talvez pela forma como celebro.
Gazeta da Lapa – Qual a sua opinião sobre o Santuário de Bom Jesus da Lapa?
Padre Zezinho – Sem sombra de dúvida é uma obra magna da natureza. Percebo que o lapense não dá o devido valor a esta obra graciosa que é o Santuário. Mas, vou e volto, geralmente, nós quando temos algo não sabemos dar valor. No que diz respeito à romaria, vejo-a como manifestação de uma fé simples, mas enriquecida de sentimentos verdadeiros. O romeiro do Bom Jesus tem grandes diferenças dos romeiros de outros lugares sagrados. É um romeiro muito espontâneo, simples. Um romeiro que dialoga com o Bom Jesus. O que o faz diferente, impar.
Gazeta da Lapa – E sobre esta cidade?
Padre Zezinho – A cidade de Bom Jesus da Lapa por ser uma cidade turística, deveria ter melhores acessos, melhor infra-estrutura, melhor planejamento. Uma outra coisa, é que percebo o descaso do poder público, seja ela municipal, estadual e pior federal. Por exemplo, a saúde, qualquer exame simples, que não seja o laboratorial, aqui não se faz. Qualquer pessoa que tenha um caso mais grave de saúde, nem tão grave assim, é levada para as cidades da região. A cidade da Lapa, por ser longe de grandes cidades, deveria ter uma melhor assistência médica. Em síntese, basta olharmos o caos em que se encontram as nossas rodovias.
Gazeta da Lapa – Dentre os seus paroquianos ou até mesmo algum confrade já lhe interpelaram quanto a sua forma de celebrar?
Padre Zezinho – Já, tanto entre os paroquianos quanto aos confrades. Mas faz parte, nada que me tire o sono. Vejo como algo positivo, pois é bom ser diferente, isso me deixa em êxtase, sou diferente.
Gazeta da Lapa – O que o senhor acrescentaria a esta entrevista, que não lhe foi questionado?
Padre Zezinho – Acrescentaria que vou continuar com a forma de evangelizar que venho tendo, mesmo que algumas pessoas não compreendam. Que prefiram estar pelas “bordas” do que ir ao centro. Devo dar o melhor de mim, não agir na lei do menor esforço. Por fim, agradeço ao jornal Gazeta da Lapa, na pessoa de Ispedito Nunes, pela entrevista e dedico esta entrevista, como tudo em minha vida, ao meu amado amigo. Ponho-me a disposição da comunidade lapense e aberto, inclusive, a comentários.
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