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terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A JUVENTUDE NA ATUAL SOCIEDADE



O Papa Bento XVI, em sua mensagem para a XXIII jornada mundial da juventude, em Sidney, afirma que « Nunca esqueçais que a Igreja, aliás, a própria humanidade, a que vos circunda e a que vos aguarda no futuro, espera muito de vós, jovens, porque tendes em vós o dom supremo do Pai, o Espírito de Jesus». É o reconhecimento, explícito, do valor incomensurável do jovem na Igreja. O Documento da CNBB, sobre a Evangelização da Juventude, afirma: «A juventude mora no coração da Igreja e é fonte de renovação da sociedade. Os jovens de todos os tempos e lugares buscam a felicidade».

O tema da XXIII jornada é embasado na passagem de Atos 1, 8, «mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra». A juventude impulsionada por esta força, a do Espírito de Jesus, é sinal, testemunho, de uma Igreja viva e vivificante no meio da sociedade atual, a qual tenta supervalorizar o poder do consumo e do supérfluo, numa subcultura da aparência, do descartável. Falando em aparência, destacamos dois exemplos claros dessa ideologia: o culto hedonista ao corpo, a mutilações dos corpos por meio de tatuagens e piercing.

Temos, atualmente, um considerável número de jovens e adolescentes tatuados e que fazem uso do piercing. Diante de tal conduta, perguntamo-nos: usam porque acham bonito? Estão reproduzindo uma inquietação interna? Uma instabilidade humana? Os questionamentos são pertinentes, e tentarei esclarecê-los na medida do possível e dentro do âmbito psicanalítico.

A juventude, entre os 15 e 18 anos de idade, revela-se como um momento de instabilidade, pois nesta etapa se tem pouca aceitação das frustrações ocorridas e isso causa insegurança frente a uma possibilidade. O adolescente é um crescer sem ser grande, é não mais ser pequeno sem deixar de ser menor. É um momento de tormento, de aflição, mas, sobretudo, de grandes arriscadas, investidas num potencial, objetivo. É na adolescência-juventude que se tem um espírito de aventura, de se jogar para o além.

O «piercing é uma forma de modificar o corpo humano, normalmente furando-o a fim de introduzir peças de metal». Quem ainda não viu um adolescente, um jovem com um piercing no nariz, no umbigo, na língua, na orelha? Estão por todos os lugares, inclusive pelas pequenas cidades. Hoje, a maioria dos jovens usa quando não um piercing, um ou dois brincos nas orelhas. Esta realidade revela-nos uma insegurança, uma inquietação interna e, acima de tudo, uma falta de referência da juventude. A ideologia do consumismo, do imediatismo, sente-se plenamente realizada, pois este é o seu objetivo, consumir, consumir sem saber para que e onde chegar. O mutilar o corpo é uma forma de manifestar a inquietação interna do jovem. Diante de uma sociedade que supervaloriza o ter, o jovem que não tem um referencial seguro, sente-se envolvido e atraído pelo supérfluo, pela aparência exacerbada.

Outra marca desta instabilidade da juventude atual é o número de rapazes que vão as academias de musculação, não para fazer um exercício físico, este eles nem pensam. Vão para ficarem musculosos. Não se importa com percas, que casualmente as tenha, o importante, dizem, é ficar «bombados». Quanto, as moças, estas dão-se ao exagero das maquiagens, das dietas, a fim de não ter nenhuma gordurinha. Este culto ao hedonismo moderno que não o [jovem] leva a lugar algum, a não ser a uma inquietação, a uma instabilidade incomensurável psiquicamente e, obviamente, é refletida em todas as ações dos jovens, inclusive, nas ações religiosas, as quais passam a ser sem compromisso, pois a religião não preza por esta cultura do frívolo.

Acredito que esta preocupação foi a da 44ª Assembléia Geral da CNBB em Itaici, SP, realizada em maio de 2006, como também, a do Papa Bento XVI, para a XXIII Jornada Mundial da Juventude com o tema «Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas». Preocupação que procede, pois a Igreja sente-se interpelada pela juventude frente a esta desumana realidade. «A Igreja continua olhando com amor para os jovens, mostrando-lhes o verdadeiro Mestre – Caminho, Verdade e Vida – que os convida a viver com ele. Nós, pastores, consideramos urgente e importante o tema da Evangelização da Juventude para refleti-lo à luz da Palavra de Deus e de tantas riquezas e desafios deste momento histórico-cultural em que vivemos» (EJ 1).

Diante da necessidade de fomentar e despertar os valores, devemos restabelecer os vínculos afetivos entre os jovens, mostrando-lhes o caminho da ternura. A ternura, que por sua vez, é «força, sinal de maturidade e vigor interior, e desabrocha somente em um coração livre, capaz de ofertar e receber amor» (ROCCHETTA, 2006, p. 9). Numa análise mais profunda da ternura constatamos as duas fundamentais exigências do ser humano, desejar amar e saber que é amado. Em nosso meio, costumamos não revelar, dizer-demonstrar, o que sentimos um pelo outro, o humano. Sempre falamos, até demais, os defeitos dos outros. Mas temos medo, parece-me, hediondo em assumirmos que amamos. Devemos aprender a manifestar o amor, a ternura que sentimos não «é coisa de mulher». Ora! O homem sabe o que sente. Sente alegria, dor, tristeza... mas nega-se a tal ponto de sofrer psiquicamente. Sentimentos não dizem respeito a gênero, se homem ou mulher, mas a toda raça humana. Foi humano, tem sentimentos e estes devem ser expressos. «Não esperemos pelo epitáfio». Rocchetta coloca que entre todos os sentimentos que o homem desenvolveu durante sua história, não existe um que supere a ternura como qualidade tipicamente humana e humanizante. É um processo de enriquecimento e engrandecimento humano incomensurável. Canciani em sua obra, La tenerezza (A ternura), afirma que «alguns pensam que a ternura seja um sentimento marginal da personalidade. Pertence, ao contrário, a nosso próprio ser: sua ausência é sinal de uma natureza incompleta. Esta é a razão pela qual quem não a possui, busca, pelo menos, substitutos».

A contraproposta da sociedade é, extremamente, diferente da proposta da religião, a dos valores, das virtudes, do encantamento. A juventude por encontrar-se numa conjuntura do círculo consumista, vive na desorientação, por isso é fácil de aderir ao supérfluo, diga-se de passagem, o supérfluo atrai muito mais do que a postura da integridade e da dignidade, pois oferece, ilusoriamente, o que o jovem pensa precisar momentaneamente. Em outra oportunidade, apontarei outras saídas, além da cultura da ternura, para nossa querida juventude brasileira.

Diác. José Roberto, CSsR
Zezinho