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segunda-feira, 16 de junho de 2008

A SEXUALIDADE


“Adolescente, olha! A vida é bela!
A vida é bela... e anda nua...
Vestida apenas com o teu desejo”.
Mário Quintana

“Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Luís de Camões

“Na verdade, a coisa mais pornográfica que existe é a palavra ‘pornografia’”.
Mário Quintana


Antes de tudo, vale lembrar que sexualidade é um termo amplamente abrangente que engloba inúmeros fatores e dificilmente se encaixa em uma definição única e absoluta. Está além do conceito. O termo “sexualidade” nos remete a um universo onde tudo é relativo, pessoal e muitas vezes paradoxal. Pode-se dizer que é traço mais íntimo do ser humano e como tal, se manifesta diferentemente em cada indivíduo de acordo com a realidade e as experiências vivenciadas pelo mesmo.

Sexualidade é uma característica geral, experimentada por todo o ser humano e não necessita de relação exacerbada com o sexo, uma vez que se define pela busca de prazeres, sendo estes não apenas os explicitamente sexuais. Pode-se entender como constituinte de sexualidade, a necessidade de admiração e gosto pelo próprio corpo, por exemplo, o que não necessariamente signifique uma relação narcísica de amor incondicional ao ego. A psicanálise Freudiana considera a existência de sexualidade na criança já quando nasce. Propõe a passagem por fases (oral, anal, fálica) que contribuem ou definem a constituição da sexualidade adulta que virá a desenvolver-se posteriormente.

A sexualidade não se trata de fazer uso dos genitais, mas é “toda uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância que proporcionam um prazer irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental (respiração, fome, função de excreção, etc.), e que se encontram a título de componentes na chamada forma normal do amor sexual” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 476). Podemos observar que a sexualidade não pode e nem deve ser reduzida a uma mera manifestação do uso dos genitais[1]. Isso dado que a sociedade atual, sendo ela de um hedonismo desenfreado, quer assim proceder. A sexualidade abrange todo um ciclo de prazeres, os quais são constituintes do ser humano. A sexualidade, na psicanálise, desenvolve uma importância muito grande, pois esta está no desenvolvimento e na vida psíquica do ser humano.

Para melhor compreendermos a nossa sexualidade, é importante compreendermos a transformação pela qual ela passou. Para tal, faz-se necessário expandirmos o conceito de sexualidade. Primeiro partir de uma visão da sexualidade como instinto, ou seja, como “um comportamento pré-formado, característico da espécie, com um objeto (parceiro do sexo oposto) e uma meta (união dos órgãos genitais no coito) relativamente fixos, perceberemos que ela só muito imperfeitamente explica fatos fornecidos tanto pela observação direta como pela análise” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 477). Quer dizer, o instinto é sempre previsível, é característico por manter uma normalidade, enquanto a sexualidade é dinâmica. O instinto é, “classicamente, esquema de comportamento herdado, próprio de uma espécie animal, que pouco varia de um indivíduo para outro, que se desenrola segundo uma seqüência temporal pouco suscetível de alterações e que parece corresponder a uma finalidade” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 241).

“A idéia de sexualidade é de tamanha importância na doutrina psicanalítica que, com justa razão, pôde-se afirmar que todo o edifício freudiano assentava-se sobre ela” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704). A psicanálise tem a sexualidade como fundamento devido ser inerente a todo ser humano, a ser própria da condição humana. A sexualidade é, por assim dizer, o combustível que alimenta a vida humana. É o dinamismo da vida. A sexualidade faz do ser humano o que ele, realmente é, humano. Isso diferencia-o, também, dos outros animais. Sendo a sexualidade do ser de todos nós, é ela, também, a causa “primária da gênese dos sintomas neuróticos. Daí a criação da sexologia como ciência biológica e natural do comportamento sexual” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704).

A noção de sexualidade como disposição psíquica deu-se graças a Freud, extirpando assim o fundamento biológico, anatômico e genital e fez da sexualidade a própria essência da atividade humana. “Portanto, é menos a sexualidade em si mesma que importa na doutrina freudiana do que o conjunto conceitual que permite representá-la: a pulsão, a libido, o apoio e a bissexualidade” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704). Obviamente, Freud não inventou uma terminologia particular para distinguir
os dois grandes campos da sexualidade: a determinação anatômica, por um lado, e a representação social ou subjetiva, por outro. Não obstante, por sua nova concepção, ele mostrou que a sexualidade tanto era uma representação ou uma construção mental quanto o lugar de uma diferença anatômica. Em conseqüência disso, sua doutrina transformou totalmente a visão que a sociedade ocidental tinha da sexualidade e da história da sexualidade em geral (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704).

Como já foi mencionado anteriormente, reduzir a sexualidade aos genitais é, sem sombra de dúvida, uma ignorância grotesca. Sabemos da importância da simbologia que eles trazem consigo, como por exemplo, biblicamente, é nos genitais que Deus marca ou corta a sua aliança. “E é a extremidade do pênis, o prepúcio, o lugar que Deus escolherá para marcar ou ‘cortar’ sua aliança com Abraão, no gesto da circuncisão” (MIRANDA, 2000, p. 98). E mais,
Ele envolve e relaciona tanto os órgãos sexuais reprodutores masculinos e femininos (pênis, vagina, testículos, útero, ovários) como a parte da bexiga, que acolhe o fruto da transmutação do sangue em água, símbolo dos milagres diluvianos, batismais e pascais. A importância do universo simbólico dos órgãos sexuais na Bíblia é dada pelo fato de que é no sexo que Deus encontra o lugar para marcar (cortar) sua aliança com os homens, com a circuncisão. Eminentemente ternário (um pênis e dois testículos) o órgão sexual masculino, ao encontrar-se com o feminino quaternário (quatro lábios da vagina), gera a totalidade e a perfeição do número sete (MIRANDA, 2000, p. 98).

Vale lembrar que não é possível tratar em minúcias os detalhes desta tão rica simbologia bíblica, como também, “toda a riqueza simbólica do plexo urogenital” (MIRANDA, 2000, p. 98).

Como mencionado anteriormente, para compreendermos a sexualidade é preciso observamos outras “forças” que convergem em nossa vida, dando origem a esta força vital chamada sexualidade. Por exemplo, libido, pulsão, como também, o processo de formação da personalidade da pessoa com seus altos e seus baixos, afinal os altos e baixos constituem o que somos. Entendemos por LIBIDO a “energia como substrato das transformações da pulsão sexual quanto ao objeto (deslocamento dos investimentos), quanto à meta (sublimação, por exemplo) e quanto à fonte da excitação sexual (diversidade das zonas erógenas) (LAPLANCHE; PONTALIS, 2004, p. 265-6). Por PULSÃO, entendemos o “processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz o organismo tender para um objetivo (LAPLANCHE; PONTALIS, p. 394).
Pe. José Roberto, C.Ss.R.
Zezinho





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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
LAPLANCHE, Jean; PLON, J-B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Corpo. Território do sagrado. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
ROUDINESCO, Elisabet; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
[1] Para a psicanálise, a sexualidade é a significação sexual a qualquer ato da vida, a qualquer gesto, qualquer palavra (cf. ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 704)

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