
Resenha: Hüng, H. Projeto de ética mundial. Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. São Paulo, Paulinas, 2003. 4 Edição.
Na introdução da obra supracitada, Hans Küng oferece-nos um princípio de incomensurável valor. “Certamente a sociedade mundial não necessita de uma religião unitária, nem de uma ideologia única. Necessita, porém, de normas, valores, ideais e objetivos que interliguem todas as pessoas e que todos sejam válidos.” Com isso, aprendemos a dimensão por onde passa o autêntico[1] ecumenismo. Diante de tal postura, podemos constatar que “não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões”, tema da UNESCO.
Ora, para caminharmos em direção a uma autêntica postura de respeito, devemos caminhar por diversos segmentos da sociedade mundial, pois a medida que os compreendemos, passaremos a ver com honestidade o outro e, o “Ocidente está diante de um vazio de sentido, de valores e de normas”. Não sendo apenas “um problema de indivíduos, mas também um ponto político de maior relevância”.
Diante disso, “ninguém pode ser seriamente, por princípio, ‘contra o progresso’. Somente é questionável o fato de que, em grandes partes da América, do Japão e da Europa, o progresso técnico-industrial se transformou num valor absoluto, num ídolo, no que se cria incondicionalmente”. A compreensão do processo político-econômico pode ajudar-nos a compreendermos as verdades religiosas, não do ponto de vista da fé, mas como um corpo social que o é, e não podemos negar.
O progresso mundial não pode está acima do ser humano, pelo contrário, deve estar a servido dele, pois, quer-se “a passagem de uma ciência sem ética para uma ciência eticamente responsável, a passagem de uma tecnocracia que domina as pessoas para uma tecnologia que serve à humanidade das pessoas”. A modernidade deve ser corroborada pela sua “forma humana” e negada “nos seus limites desumanos”, deve, portanto, “transcender para uma nova síntese, diferenciada, pluralista e holística”.
Esta gama que forma a sociedade necessita de algo que a ligue, não por unicidade, mas por conduta ética-moral, por isso, “precisamos da ética, da doutrina filosófica e teológica sobres os valores e as normas que devem orientar nossas decisões e ações. A crise deve ser entendida como uma oportunidade”. Não se deve contabilizar erro. Falamos, com respaldo, que “sem um mínimo de consenso fundamental com respeito a valores, normas e posturas não é possível a existência de uma comunhão maior nem uma convivência humana digna”. Temos a certeza de que “não se pode melhorar a pessoa humana com um número cada vez maior de leis e preceitos”.
Para que haja um respeito mútuo entre as religiões é necessário esvaziarmo-nos de nossos juízes, pois “somente quem está imbuído de preconceito deixará de reconhecer que as grandes religiões contribuíram grandemente para o desenvolvimento espiritual e normativo dos povos”. Isso sim, é passarmos pela via do ecumenismo. Todos nascemos livres, “com os mesmos direitos de dignidade, a partir daí também deriva o direito de liberdade de religião”. Pois o perigo é tornar a religião algo cabal e intransigente. “As religiões institucionalizadas e as Igrejas cristã encontram-se em crise. Na Europa, isso se verifica graça à rigidez e ao isolamento (Igreja católica) e em razão do desgaste e da falta de performance (Igreja protestante)”.
Por fim, este livro aponta-nos dimensões reais e que devemos observar. Diante de tão exaustivas explicações, a leitura se torna prolixa e enfadonha, mas não devemos deixar de pontuar a sua precisão acerca do ecumenismo, o1ikoumene. Precisão esta que necessitou, com mérito, passar pelo conjunto social. Pois não vamos compreender a religião supra mundo, pelo contrário, ainda que se negue, ela não está fora do contexto social, seja ele político, econômico, cultural. As religiões se abraçarão à medida que perceberem que tratam da mesma coisa e que não necessitam colocar-se acima de, ou a frente de, e sim, ao lado de. Com isso, a religião compreenderá que ela “consegue transmitir uma dimensão mais profunda, um horizonte interpretativo mais abrangente diante da dor, da injustiça, da culpa e da falta de sentido. Ela consegue também transmitir um sentido de vida último ante a morte: o sentido de onde vem e para onde vai a existência humana”. A não compreensão da dimensão religiosa, leva-nos a agirmos hostilmente, como ultimamente, vemos na ação de alguns muçulmanos, e não de todos os muçulmanos, frente a citação do Papa Bento XVI, sobre o que falara, historicamente, um imperador em tempos idos.
[1] Não se trata de querer dizer que se tenha um ecumenismo falso, mas faz jus, a colocação com veemência, a fim de melhor ser compreendida, uma vez que se deturpa o ecumenismo.
2 comentários:
Muito bom artigo! PArabéns.
Realmente o que precisamos azer para termos nações mais justas.
João
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